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Por Denis Gerson Simões
Quem vê estes meus apontamentos e me conhece pessoalmente vai achar
que esta é uma gozação. Explico: sempre defendi o
cuidado com as tradições e a necessidade de conduzir com
cautela os processo de ressignificação do cotidiano cultural,
em especial os ícones que dão face à identidades
sociais e étnicas. O motivo parece simples: evitar que se deturpe
a imagem do antigo frente os modismos da contemporaneidade. Mas, observando
por anos essa questão, vem o questionamento: o que garante a sobrevivência
dessas tradições?
Querendo ou não, a sociedade mundial vive num constante processo
de mudanças, que não necessariamente se constituem em melhorias
em todos os setores. Os anseios das pessoas vão cambiando de acordo
com os contextos e se apresentam aos olhos populares novas tendências.
A idéia de "moda de trocas necessárias"
tornou-se vigente e "atualizar" virou a palavra chave
pra se estar conectado ao que está de mais novo e vigente. Em outras
palavras, as pessoas estão motivadas a realizarem suas festividades
e manifestar sua cultura popular através destas percepções
de seu cotidiano; querem usar da lógica que está atuante
para interpretar o passado. Fazem um anacronismo sem perceberem, mas bem
intencionadas. É através dessa reconstrução
do folguedo, muitas vezes não consciente, que as antigas tradições
conseguem sobreviver, mesmo que não mais tenham ares de tradicional.
E esse movimento deve ser combatido? Há algum tempo eu diria que
sim, mas chego à conclusão que hoje este é um processo
necessário. Explico: frente ao modismo e às mudanças
constantes de impulso popular, aliadas ainda à lógica de
auto-sustentabilidade da cultura, não é cabível desestimular
a sociedade a realizar seus impulsos populares só porquê
eles se descaracterizaram. Combater a carnavalização
da cultura, como chamei o processo de metamorfose midiatizada das
festividades não-religiosas, pode ser um trabalho que pode gerar,
ao final, efeitos colaterais mais negativos do que positivos. Daí
que trouxe a expressão: Não frustrem os foliões.
Não desmotivem quem está trabalhando!
Mas o que fazer frente a esta questão? Se homologa e apóia
essa carnavalização? Na realidade o que vem à
minha mente neste caso é a palavra respeito. Sim, ter respeito
ao que o povo constrói ou assume como seu. Não se trata
aqui de uma apologia a adotar visões carnavalizadas, mas
sim considerar com legitimidade quem o faz de forma espontânea,
com uma motivação de base cultural. Muitas vezes o imaginário
popular constrói elementos sobre as tradições tão
legítimos quanto a própria tradição. Negar
isso é se desconectar do cotidiano e racionalizar os impulsos humanos.
Todavia, isso não significa a passividade ao ver o folclore e
cultura popular histórica se deteriorarem. Pelo contrário.
Podemos fazer aqui o uso da velha frase “faça do limão
uma limonada”. Ao invés de combater, com intenção
de extinguir e confrontar, assumamos a idéia de educar. Se somando
a esses movimentos populares, engajando-se em fortificá-los e subsidiá-los
de informações pertinentes, que é possível
dar novo rumo a essa carnavalização das identidades
festivas sociais. A educação é o modo como fazer
a comunidade crescer. Se constroem aprendizados com aspectos colaborativos,
fortificando engajamentos, apoiando as motivações pessoais
e coletivas, sem esquecer que é viável apontar alternativas
sadias aos clichês que se apresentam. É necessária
a consciência que na maior parte dos casos a deturpação
de identidades do passado é fruto da falta de conhecimento das
pessoas do presente.
Assim, me parece interessante reforçar a frase, mas completando-a:
não frustrem os foliões, mas sim impulsionem-nos a também
considerarem outras alternativas. Bons exemplos dessa realidade estão
à mostra e precisam tanto ser considerados, quanto apoiados. Mesmo
comercial e turística, a Oktoberfest de Blumenau vem mostrando,
nas últimas edições, que é possível
dialogar de forma civilizada com a comunidade, quando aos poucos vem realizando,
com informes educativos e opções inteligentes, uma motivação
ao freqüentador repensar o evento e sua identidade, mesmo em meio
a tantos clichês. Também ações de cunho regionalista
no Rio Grande do Sul vem colocando em dúvidas velhos dogmas criados
por desconhecimento dos tradicionalistas e passam a rediscutir o sentido
do simbolismo do gaúcho, desta vez com mais responsabilidade e
de forma palatável à população. A carnavalização
pode ser pensada e repensada até mesmo no carnaval, mas creio
ser importante não preferir à morte da motivação
à uma originalidade. Não esqueçamos que não
se pode querer fazer do popular um erudito.
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